Duas décadas após Andy Sachs pedir as contas jogando seu celular em uma fonte em Paris, o mundo da moda não é mais o mesmo. Em O Diabo Veste Prada 2, encontramos uma Miranda Priestly enfrentando o seu maior adversário até hoje: a irrelevância. Com o declínio das revistas impressas e a ascensão agressiva dos conglomerados digitais, Miranda se vê forçada a negociar com o passado para salvar o seu futuro. A trama gira em torno da tentativa de Miranda de reerguer a Runway em meio a uma crise financeira sem precedentes, o que a coloca em uma rota de colisão — ou de uma aliança desesperada — com Andy Sachs, agora uma executiva de mídia influente, e Emily Charlton, que subiu os degraus da indústria com uma ambição moldada pela própria mentora. O filme não é apenas sobre moda; é sobre quem segura o cetro quando o reino está desmoronando.
Sabe aquela sensação de que o tempo é meramente uma sugestão? Assistir a O Diabo Veste Prada 2 em 2026 causa exatamente isso. Parece que foi ontem que conhecemos a Miranda Priestly, e o filme joga com essa nostalgia de forma brilhante. Esses personagens são tão cimentados na cultura pop que eles nunca saíram do nosso imaginário; eles apenas estavam esperando o momento certo para voltar. É impressionante como, em segundos, tudo parece tão familiar e presente, como se o tempo sequer tivesse passado.
Em uma era onde Hollywood vive de sequências requentadas, desnecessárias e que a gente esquece dez minutos depois de sair do cinema, este filme é uma anomalia potente. Ele estabelece um nível de qualidade tão alto quanto o original de 2006. É claro que temos aqueles elementos "insignificantes" que o roteiro insiste em manter, como o namorado da Andy (que continua sendo o ponto mais entediante da história).

O silêncio de Meryl Streep continua sendo o som mais alto do cinema atual. Mas o grande trunfo desse roteiro é a construção de uma Miranda Priestly humanizada. Não se enganem, ela continua implacável, mas agora o filme nos permite ver as rachaduras na armadura. Pela primeira vez, enxergamos a vulnerabilidade de uma mulher que dedicou a vida a um império que o mundo agora chama de "obsoleto". Ver o cansaço nos olhos dela enquanto encara o avanço digital é de quebrar o coração. O filme não limpa a barra dela, mas nos dá contexto: ela não luta mais por ego, ela luta para não ser apagada pela história. É a "Moda como Terapia e Sobrevivência".
Chame de corajoso ou preguiçoso, o filme troca a saturação vibrante de 2006 por uma fotografia fria e clínica, ecoando a tendência do cinema atual de "perder a cor" em favor de uma estética mais estéril e algorítmica e o figurino abandona o brilho óbvio pelo Quiet Luxury agressivo, com tecidos que absorvem a luz e silhuetas arquitetônicas que funcionam como armaduras de sobrevivência. Essa frieza é equilibrada por uma "pele de museu" na maquiagem, que exalta a maturidade dos personagens sob as lentes de altíssima definição, criando um contraste sensorial entre a precisão gélida da Runway e o caos do mundo digital.
Se alguém tinha dúvida, a resposta veio na primeira cena: Meryl Streep e Emily Blunt continuam sendo o coração pulsante dessa franquia. Elas não apenas atuam; elas "engolem" a tela de um jeito que a Anne Hathaway acaba ficando esquecida no fundo tanto quanto Nigel.
Ao tentar comprar a Runway pelas costas da Miranda, a pupila Emily descobre que sua traição foi prevista e usada como isca, culminando em uma humilhação cirúrgica que a crítica internacional definiu como "uma masterclass de sadismo elegante". O roteiro foi brilhante ao brincar com o preconceito do público sobre o envelhecimento aqui ao percebermos que Miranda brincou com a audiência e com seus inimigos, usando a fachada de "velha esquecida" como uma arma de guerra.
O filme traça paralelos geniais com 2006, especialmente na icônica cena do banco de trás do carro, onde a dinâmica de poder é reafirmada através de um "gaslighting profissional": enquanto Emily é descartada por sua previsibilidade, Miranda reconhece em Andy a única peça que ainda merece estar no seu tabuleiro, de novo. O "plot twist" funciona porque ele não trai a essência da personagem. Se a Miranda tivesse sido realmente traída pela Emily, o mito morreria. Ao prever e esmagar a tentativa da Emily, o filme consagra Miranda Priestly não como uma sobrevivente, mas como a dona do jogo.
No fim das contas, O Diabo Veste Prada 2 não é apenas uma sequência; é uma aula de como manter um legado vivo sem se tornar um museu. Ele prova que Miranda Priestly não é apenas uma personagem, é uma instituição. É um filme forte, potente e necessário. Afinal, em 2026, todos ainda querem ser elas, mas ninguém — absolutamente ninguém — consegue chegar aos pés de Meryl Streep. Ops... Miranda Priestly.
O filme já está em cartaz nos cinemas do Shopping Recife.

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