Quando a Pixar lançou Toy Story nos anos 90, a grande magia era imaginar o que os brinquedos faziam quando saíamos do quarto. Três décadas depois, o drama mudou de figura: o problema não é o que eles fazem sozinhos, é que as crianças não olham mais para eles. Toy Story 5 chega aos cinemas em 2026 trazendo a franquia para o seu cenário mais realista e cruel até hoje. A trama central acompanha Jessie, Woody, Buzz e os brinquedos de Bonnie enfrentando uma ameaça silenciosa e muito mais poderosa do que qualquer vilão colecionador: o vício em telas e tablets, personificado na nova e reluzente inteligência artificial de um dispositivo eletrônico que rouba a atenção da sua criança.
É fascinante como a Pixar consegue justificar sequências que o público, a princípio, julga desnecessárias. Depois do desfecho agridoce do quarto filme, parecia não haver mais para onde ir. Mas o roteiro aqui cava um buraco psicológico brilhante ao falar sobre o luto do analógico. Ver o caubói de pano e o patrulheiro espacial disputando espaço na mente de uma criança contra um algoritmo de vídeos curtos é uma metáfora dolorosa sobre a nossa própria realidade atual. O filme não tem medo de ser melancólico; ele expõe o cansaço físico e o desgaste do plástico daqueles personagens que se recusam a virar lixo eletrônico.
Claro que, por ser um produto de Hollywood, a animação ainda se rende a algumas concessões comerciais irritantes, há piadas repetitivas com o Buzz e novos personagens feitos puramente para vender pelúcia que quebram o ritmo dramático. Porém, o saldo técnico é avassalador.
A direção de fotografia do filme é cirúrgica. Há um contraste visual violento entre a iluminação do quarto: de um lado, a luz quente, poeirenta e nostálgica que banha os brinquedos antigos; do outro, o brilho azul, frio e estéril que emana da tela do tablet e reflete no rosto hipnotizado da criança. A animação digital atingiu um nível de fotorrealismo tão absurdo que você consegue ver os arranhões no plástico de Buzz e as linhas desfiadas no chapéu da Jessie sob a luz cruel da modernidade.
O clímax do longa, que coloca o desapego da infância em xeque, evita o melodrama barato e entrega uma resolução madura sobre o papel da imaginação em tempos digitais. Toy Story 5 prova que a franquia não sobrevive de pura repetição de fórmula, mas sim da sua capacidade de envelhecer junto com o seu público.
É um soco no estômago disfarçado de filme infantil. No fim, as telas podem até ditar as regras do mundo lá fora, mas o coração da Pixar ainda bate no ritmo de um velho brinquedo à corda. Um clássico instantâneo.



