Quando, em novembro de 2025, a marca Brûlée passou a integrar o Parque Gourmet do Shopping Recife, ela abriu também mais uma frente de atuação. Já consagrado como café e pâtisserie na Zona Norte, o empreendimento enxergou no endereço da Zona Sul a oportunidade de expandir um menu que nunca foi modesto. A palavra “bistrô” foi então incorporada ao nome, sinalizando que, para além dos doces, bolos, pães e uma elaborada lista de bebidas quentes e frias, o Brûlée estava pronto para escrever um novo capítulo em sua trajetória culinária.
Na companhia dos outros sete restaurantes que compõem o moderno polo gastronômico do Shopping Recife, oferecendo cardápios ancorados nas especialidades italiana (Zio e Toscana), peruana (Chiwake), japonesa (Sushi Yoshi), contemporânea-fusion (Terra) e luso-brasileira (Boteco Cia. do Chopp e Fazenda Churrascada), o Brûlée veio para somar.

A opção pela base clássica da cozinha francesa como fio condutor para o projeto do bistrô foi uma questão de coerência e afinidade. Afinal, quando a referência é confeitaria e panificação, as vitrines das pâtisseries e boulangeries francesas surgem quase como cartões-postais da gastronomia mundial.
A consultoria para implantação da fase inicial do Brûlée coube a Diego Lozano. Considerado um dos melhores chefs confeiteiros do Brasil, jurado do MasterChef Confeitaria e proprietário do restaurante Levena, em São Paulo, Lozano tem nos entremets uma de suas marcas autorais. E foi a partir dessa sobremesa, ainda pouco executada comercialmente no Recife, que surgiu o cardápio inicial do Brûlée.

Curiosidade:
Originário da França, o entremet se destaca pela arquitetura de camadas, em que cada textura cumpre um papel preciso na experiência sensorial. Beleza plástica e rigor técnico fazem dessa sobremesa um dos desafios mais fascinantes das competições culinárias televisivas.
A linha de viennoiserie (croissant, pain au chocolat, brioches) oferecida pelo Brûlée também leva o selo de Lozano. A partir dessa massa amanteigada, são montadas delícias que habitam a fronteira entre o doce e o salgado, a panificação e a confeitaria. É o caso do Suprème Brûlée, que é uma massa de croissant recheada com crème brulée maçaricado. E, ainda nessa categoria, o croissant, “rei da viennoiserie”, se despe de sua sobriedade tradicional (acompanhado apenas por manteiga e geleia) para se jogar no esbanjamento nacional de recheios como o da Francesinha Brûlée (escalope de filé e linguiça, gratinados com muçarela, finalizado com molho e coroado com um ovo estrelado).

Curiosidade
A palavra viennoiserie deriva de Vienne, ou Viena, em francês. Essa técnica, caracterizada pela fermentação e uso abundante de manteiga, teve origem na Áustria, e não na França. Porém, ao ser introduzida por padeiros austríacos em Paris, no século XIX, passou a ser aperfeiçoada e celebrada mundialmente como uma tradição francesa.
Brûlée preenche todas as fomes: almoço, lanche e jantar
Se a impressão digital da “Pátria da Gastronomia” está na criação do Brûlée, nada mais natural que, na sequência, o bistrô partisse também desse DNA francês. A experiência do chef pernambucano Claudemir Barros foi recrutada para materializar o projeto, que teve a unidade do Parque Gourmet como piloto.

Os crepes acrescentados ao cardápio foram um caminho natural para a expansão pretendida pelo Brûlée. Especialidade cujo berço é a região francesa da Bretanha, os crepes, doces e salgados, conquistaram primazia entre os brasileiros a partir dos anos 1990, quando creperias passaram a despontar como um empreendimento gastronômico de baixo custo e alta aceitação.
Além do mais, esse disco feito com farinha de trigo, leite e ovos, assim como aconteceu com o croissant, acomoda praticamente todo tipo de recheio, o que é uma mão-na-roda para a proverbial criatividade brasileira quando o assunto é inventar moda.
Reinterpretar, e reinventar-se, é seara conhecida e explorada por Claudemir Barros, um chef que tem no currículo o comando de restaurantes que ajudaram a escrever a história da gastronomia pernambucana, a exemplo do Mingus, Wiella e Chica Pitanga. Talento e ousadia, na medida certa, que foram reconhecidos pelo honroso título de “chef do ano”, concedido pela revista Prazeres da Mesa, em 2012.

Curiosidade:
O conceito de “bistrot” surgiu em Paris no século XIX como estabelecimentos simples, familiares, com comida bem-feita e preços mais acessíveis que os restaurantes de alta gastronomia. Os cardápios ofereciam pratos clássicos e reconfortantes.
Um diálogo entre culturas gastronômicas e hábitos culinários
O cardápio desenvolvido por Claudemir Barros para o “lado” bistrô do Brûlée não é conservadoramente francês. Esse chef gosta de dar asas à imaginação, utilizando outras influências culinárias, inclusive recorrendo a ingredientes regionais.
O filé mignon ao molho roti de rapadura, servido com farofinha tostada e aligot de cará, é um bom exemplo dessa verve multicultural. Na composição, a rapadura – tradicionalidade nordestina feita a partir da solidificação do caldo da cana-de-açúcar – se une a dois elementos franceses por excelência: o molho roti (rôti = assado) e o aligot, purê elástico que mistura queijo e batata, na versão nordestina substituída pelo cará. É um campeão de preferência no Brûlée.

Na tradição da culinária francesa, os molhos desempenham um papel central, a ponto de existir um cozinheiro especializado exclusivamente nessa arte: o “saucier”. No Brûlée Bistrô, os molhos reforçam a essência francesa do menu. Um exemplo é o molho provençal, que acompanha o salmão servido com purê de amêndoas e remete imediatamente às paisagens ensolaradas de Provença, combinando alho, tomate, azeite e ervas aromáticas.

A coxa de pato confit com pêra ao molho de vinho e massa choux recheada com cogumelhos e maçã caramelizada vai fazer brilhar os olhinhos de quem ansiava por mais fidedignidade aos clássicos franceses encontrados nos bistrôs parisienses. É voilá e oxente dividindo a mesma panela.
Curiosidade
A massa choux (ou pâte à choux) geralmente serve como veículo para outros sabores. Ela é oca por dentro e de sabor bem neutro, daí sua versatilidade. É preparada com água ou leite, manteiga, farinha de trigo e ovos. Ela é primeiro cozida na panela e só depois vai para o forno, onde obtém a textura crocante. Exemplo de massa choux: éclair e profiterole.

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