Quando aceitou o convite para integrar o Parque Gourmet, modelo inovador de polo gastronômico no Shopping Recife, o chef André Saburó tinha uma certeza: mais do que um repertório de pratos deliciosos, o Sushi Yoshi traria alma para o novo endereço.
Na cultura japonesa, a alma não é vista como algo separado da família ou da história, mas profundamente conectada à ancestralidade, à continuidade do clã, ao lugar de onde se vem.
A família Matsumoto veio de Nagasaki, no Japão, aportando primeiramente em São Paulo, e depois no Recife, onde permaneceu, criou raízes e entrou para o ramo da alimentação.
Sempre unidos, os irmãos Shigeru e Masayoshi Matsumoto fundaram seus próprios restaurantes, respectivamente o Quina do Futuro e o Sushi Yoshi. Coube a André Saburó, filho caçula de Shigeru e Tomiko, sobrinho e discípulo de Masayoshi, dar continuidade à tradição iniciada pelos patriarcas imigrantes.
No Japão tradicional, os antepassados não pertencem “ao passado”, mas são presenças ativas, embora incorpóreas, que devem ser honradas, sobretudo no conceito de “casa” e linhagem familiar. É uma concepção sensível, que abdica da individualidade para pensar a humanidade como um fluxo maior que atravessa o tempo.
Por alguns instantes, os olhos se detêm nos mínimos detalhes

O tesouro legado pela família Matsumoto – em técnica, tradição e ingredientes – deve ser degustado com apreço e reverência. Mas ele não se limita ao frescor dos pescados de cortes precisos ou ao tempero exato do arroz.
Espalhada por todos os cantos do restaurante no Parque Gourmet está uma coleção de objetos que nos falam de um país distante, de deslocamento e da assimilação de uma nova pátria: o Brasil. E de uma cidade – o Recife – que acolheu, acomodou e viu surgir uma nova geração. E é para esse acervo de memórias que chamamos a atenção.
A beleza representada na continuação de uma linhagem
Um quimono em seda se impõe como peça central, atraindo o olhar por sua majestade. Ricamente bordado em tons de dourado, prata, laranja e vermelho sobre a superfície acetinada, quase uma madrepérola. Trata-se de um Uchikake, traje nupcial feminino que viajou do Japão ao Recife como presente enviado por uma sobrinha a Tomiko Matsumoto.
A veste, que até então era zelosamente guardada em uma mala, longe da vista do público, passou a ocupar um lugar de honra. Ali, privilegia os clientes com sua elegância contida e oferece pistas sobre as razões de o Japão ter se tornado referência estética no Ocidente, dentro e fora do prato
.

Objetos que acolhem e narram
Ao lado da vitrine que expõe e protege a veste festiva, uma prateleira sustenta uma sequência de objetos carregados de significado. Entre eles está o já popularizado Maneki-Neko, o gato da sorte que convida a fortuna para dentro de casa e, por isso, deve ser colocado diante da porta principal. Na função de anfitrião discreto, ele acena as boas-vindas à abundância e à proteção.

Temaris: o gesto do afeto que se transmite
As Temaris – bolas tecidas manualmente com diferentes tipos de fios – foram confeccionadas por Tomiko e presenteadas ao filho, André Saburó. Em tamanhos e cores variados, alinham-se cumprindo sua função simbólica de carregar boas energias, um gesto delicado que expressa votos de prosperidade.
Nos primórdios, essa arte têxtil tradicional era confeccionada com restos de tecidos – quimonos desgastados, por exemplo – e ofertada como representação de cuidado e afeto. Um círculo, forma perfeita sem começo nem fim, que traduz com precisão o ciclo contínuo da vida, no qual cada desenho é único em suas particularidades.

Kokeshi e a estética do essencial
Nada mais coerente do que as Temaris serem acompanhadas pelas Kokeshi. Essas bonecas de madeira, com corpo cilíndrico, eram originalmente desprovidas de detalhes: sem braços, sem pernas, sem feições definidas. Uma forma sutil de sublinhar valores caros à cultura japonesa, que encontra beleza na simplicidade, no foco ao essencial, na identidade sem excesso e na força interior, não exterior.
É o mesmo princípio do “menos é mais” que se manifesta também em sua arte culinária. Uma das Kokeshi ali expostas foi, um dia, companheira da menina Tomiko.
Chawan: o alimento como modo de estar no mundo
Alguns modelos de Chawan também integram essa estante da memória. Essas tigelas que acolhem o arroz, base da alimentação japonesa, são mais do que simples recipientes. Sua forma determina o tamanho da porção e convida a comer com atenção. Ao segurá-las nas mãos, é possível sentir peso e calor.
Por não serem produções industriais, os Chawan diferem entre si e carregam pequenas irregularidades, que não são vistas como imperfeições, mas como lembretes de que cada experiência é única. Esses utensílios traduzem noções de comedimento no ato de se alimentar, inclusive na forma como são decorados, sempre com discrição, para não ofuscar o conteúdo. Esmaltados, revelam-se ao tato: mais lisos, mais ásperos ou mais rugosos. Alguns sequer apresentam ornamentação.
O sino e a memória do clã Matsumoto
O sino de metal que repousa na prateleira inferior, encimado por um cordão vermelho, tem um significado especial para os descendentes Matsumoto. Em 1986, ao inaugurar o Quina do Futuro, Shigueru o fazia soar a cada cliente que entrava. O Quina era, então, um estabelecimento modesto, no formato de izakaya, ocupando o térreo da residência da família, no bairro dos Aflitos, com apenas oito mesas e um balcão de seis lugares.

Daruma: a resiliência como herança
Entre tantas referências culturais, o Daruma sintetiza, em uma palavra, a saga da família Matsumoto: resiliência. É um boneco arredondado, sem braços nem pernas, que se move como um “João-bobo”, balançando para frente e para trás, mas sempre retornando à posição original sem perder o equilíbrio.
O Daruma simboliza perseverança e disciplina: “cair sete vezes e levantar oito”. A história dos Matsumoto ecoa esse princípio: a jornada de dois irmãos em busca de oportunidades de trabalho em terra estrangeira, abrindo caminho num idioma desconhecido.
Os irmão Shigueru e Masayoshi chegaram à capital pernambucana em 1968 trazendo na bagagem uma máquina de fazer pastel, utensílio que lhes permitiu abrir uma pastelaria, que recebeu o nome de Tokyo’s, no então pulsante centro do Recife. Enfrentaram crises, erraram e acertaram até se tornarem parte indissociável da história da gastronomia pernambucana.
O Daruma vem com dois olhos em branco. Ao receber o boneco, faz-se um pedido ou estabelece-se uma meta e pinta-se apenas um dos olhos. Somente quando esse desejo for atendido é que o Daruma ganhará o outro olho. O Daruma não promete perfeição, ele promete retorno para aqueles que realmente se empenham em seus propósitos.
Mottainai: ética, reaproveitamento e continuidade
O chef André Saburó cresceu ouvindo da mãe, Tomiko, a expressão “Mottainai”. Ela é usada para expressar a sensação de que algo bom está sendo desperdiçado. É aquela voz interna que insiste: “Isso merecia um destino melhor”. Pode ser comida, tempo, oportunidades, energia ou, nesse caso específico, hashis, os pauzinhos que fazem as vezes de talheres à mesa japonesa.
De tanto escutar e introjetar a lição, Saburó decidiu dar aos hashis utilizados um destino que não fosse o descarte. Após reunir centenas deles, procurou o mestre marceneiro Urbano com a proposta de reaproveitá-los. O primeiro resultado dessa pareceria pode ser visto em uma mesa localizada do lado esquerdo, ao fim do balcão de sushi.
Depois de lavadas e secas, as varinhas de bambu passaram às mãos do artesão que, com paciência e habilidade nipo-pernambucana, uniu-as com cola, transformando-as em placas que deram origem a um item de mobiliário. As possibilidades de reuso são infinitas e outros objetos, como uma nova luminária para o Sushi Yoshi, já estão em processo de criação. “É respeito, gratidão e consciência no uso dos recursos”, diz
André Saburó. É, como tudo o que está contido no restaurante, uma celebração daquilo que precisa continuar.

See more:
Brûlée at Parque Gourmet is a bistro with a Pernambucan soul and a French heart
Located at Shopping Recife, the venue blends classic pastry with hot dishes while preserving its identity. France as inspiration, Pernambuco as signature.
Frevo energy, Carnival appetite
From the comfort of pasta to the lightness of fish, a Parque Gourmet guide to celebrate without losing your breath.
Gastronomic Curation Enhances the Experience at Parque Gourmet
Flávia de Gusmão leads the gastronomic curation of Parque Gourmet, connecting flavors, culture, and experiences. In the text below, the journalist introduces herself and shares her journey.


