A primeira vez em que percebi que um restaurante era mais do que um local para comer foi quando completei 15 anos. Para comemorar a idade mais simbólica da adolescência, meu pai me levou para “jantar fora”. O local escolhido, a Adega da Mouraria, era um dos ícones da noite recifense nos idos dos anos 1970. 

Instalada na Rua Ulhoa Cintra, no então efervescente centro do Recife, no bairro de Santo Antônio, a casa diferia de tudo o que eu havia visto até então. Garçons trajados com terno branco e gravata preta cruzavam o salão agilmente com suas bandejas, equilibrando coquetéis e pratos. Conversas se cruzavam no ar, as pessoas pareciam felizes de estarem ali. Um tipo diferente de satisfação. Um contentamento que celebrava os sentidos.

 Era um programa de “gente grande”, e eu me vesti para a ocasião. Ainda lembro do vestido: branco, em jérsei, com cintura baixa e um bolero rendado cobrindo os ombros. Havia música ao vivo, com orquestra e cantores — os chamados crooners —, um cardápio com nomes indecifráveis, pratos que fugiam do meu limitado repertório de comida caseira. Escolhi um filé à parmegiana. Olhando em retrospecto, pode até ser que o macarrão tivesse passado do ponto, o molho de tomate fosse improvisado e o filé, empanado em fritura gordurosa. Ainda assim, estou aqui contando essa história como se tivesse sido a melhor refeição da minha vida.

 De lá para cá, a gastronomia entrou na minha trajetória de uma maneira que nem eu mesma suspeitava. Uma relação profissional estabelecida no início dos anos 1990, quando surgiu o interesse pelo tema e o Jornal do Commercio, onde eu trabalhava, precisava de jornalistas que produzissem esse tipo de conteúdo.

 Comecei sabendo muito pouco — para não dizer quase nada. Aprendi visitando, ouvindo, lendo, pesquisando e, sobretudo, entrevistando generosos trabalhadores do ramo, que compartilharam comigo grande parte da bagagem de conhecimento que passei a carregar. Foram quase 30 anos de redação, a maior parte dedicada à gastronomia.

 O convite do Shopping Recife para ocupar o espaço de curadoria gastronômica do Parque Gourmet é, para mim, uma oportunidade de dividir com vocês um olhar curioso e sensível sobre uma área que tem sido fonte inesgotável de descobertas envolvendo cultura, arte, história, memória, territorialidade, convivência e pertencimento. Curar, nesse contexto, é escolher, aproximar e dar sentido às experiências.

 Meu objetivo é simples: convidar você a explorar o melhor do Parque Gourmet, conhecer quem está fazendo diferença e descobrir experiências que valem a pena. Este é um espaço pensado para quem, como eu, acredita que comer bem é um ato de descoberta constante — e uma fonte genuína de contentamento. Aqui você vai encontrar entrevistas com as pessoas que fazem a mágica acontecer todos os dias. Chefs, maîtres, garçons, cozinheiros, bartenders e confeiteiros são vozes que contam. Também: curiosidades, bastidores, dicas, novidades, reflexões sobre tendências, sustentabilidade e cultura alimentar.

 Vem comigo. Vai ser uma delícia.