Colleen Hoover, a rainha dos romances de sucesso com drama, se aventurou no terror com Verity, um thriller sobre verdade e ficção que cativou leitores do mundo inteiro. O livro é visceral, perturbador e articula com maestria a ambiguidade entre confissão, fantasia e manipulação. O filme, no entanto, não é nem sexy nem inteligente, apesar da beleza e da inteligência inegáveis de seus atores. O que chega às telas é uma produção irregular e desinspirada, repleta de clichês e recursos preguiçosos, que rejeita sua origem como thriller perturbador sem encontrar outro caminho para continuar fiel à história.
A premissa é potencialmente deliciosa: Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora em dificuldades financeiras, é contratada para terminar a série de livros de Verity Crawford (Anne Hathaway), uma autora best-seller que sofreu um acidente e ficou incapacitada. Ao se mudar para a luxuosa casa isolada da família Crawford, Lowen encontra um manuscrito autobiográfico. Nele, Verity revela um relacionamento obsessivo com seu marido, Jeremy (Josh Hartnett), sentimentos perturbadores sobre a maternidade e segredos que podem, e vão, destruir tudo. O que começa como um trabalho literário se transforma rapidamente em uma teia de suspeita, tentação e manipulação.
O roteiro até tenta ajustar a obra original para o cinema, eliminando um dos filhos da família Crawford e enxugando tramas secundárias do livro. Mas a verdade é que pouco importa o que foi alterado em relação à página. As mudanças estruturais não salvam uma obra que é, em sua essência, mal construída. O problema do filme não está no que saiu ou permaneceu da história de Hoover, mas sim na incapacidade de transformar esse material em um suspense minimamente consistente.

No papel, Verity chega com todos os ingredientes para um thriller erótico deliciosamente sensual. Johnson, Hathaway e Hartnett formam um triângulo absurdamente fotogênico, a mansão proporciona um cenário apropriadamente frio e o belo design de produção de Amy Williams confere ao filme o brilho associado a clássicos do gênero como Instinto Selvagem, Atração Fatal e seus muitos imitadores. As ideias mais interessantes da premissa dizem respeito à própria escrita: se algo registrado na página representa confissão, fantasia ou manipulação, e com que facilidade atribuímos verdade à ficção quando nos é dado o contexto adequado.
No entanto, o diretor Michael Showalter não sabe ao certo o que manter do romance de Hoover e o que deixar de fora. Há momentos em que nos perguntamos se Showalter, que tem uma longa e bem-sucedida trajetória na comédia, tem noção do quão ridículo tudo isso é. Se Verity assumisse de vez o tom de uma paródia, no estilo dos filmes absurdos do canal Lifetime, algumas das escolhas fariam mais sentido. Mas, se existe alguma piada interna, ninguém a revelou ao público. O ritmo geral é o de um caracol particularmente sonolento.
Hathaway narra essas passagens perturbadoras enquanto a direção as dramatiza em flashbacks, e Lowen lentamente começa a se perguntar o que realmente aconteceu dentro da família Crawford. Muito, muito lentamente. O manuscrito, que deveria ser o coração e o motor de tudo, fica sem nexo na tela, recortado em frases soltas que surgem no momento em que o roteiro precisa e não trazem a carga emocional necessária.
Enquanto isso, o desejo retratado deveria ser tão intenso que levaria Lowen a abandonar suas ambições profissionais, trilhando um caminho sombrio. Sem cenas realmente sensuais, essa mudança de personagem simplesmente não funciona. Dakota Johnson tem sua parcela de culpa: o estilo vago e murmurante ao interpretar suas falas se torna irritante. Essa abordagem apática torna-se cada vez mais cansativa, especialmente quando a história exige mais garra. Quando a narrativa pede emoção, a atriz imediatamente cobre o rosto, talvez na tentativa desesperada de esconder a falta de expressão.
Jeremy, por sua vez, nunca sai do clichê unidimensional do marido irresistível, que, neste caso, de irresistível não tem nada. No livro, ele é tão desejável que as mulheres deixam marcas de dentes na cabeceira da cama; no filme, o público pode ranger os dentes para se manter acordado ou por pura vergonha alheia. Seu relacionamento com Lowen se intensifica de forma previsível, garantindo que, quando ela chega às revelações mais alarmantes, já esteja pessoalmente envolvida. Ainda assim, não há química alguma entre Dakota, Josh e Annie.

A única que salva a produção do desastre total é Anne Hathaway. O filme se recupera quando o confronto que esperávamos finalmente acontece graças puramente a ela, que parece ser a única totalmente entregue ao projeto. Hathaway está deliciosamente malvada e, mesmo quando a narrativa se arrasta até o fundo de um lago, ela permanece excelente. Todos os sustos são causados por ela. É realmente um mérito de seu talento tornar partes deste filme assistíveis; Hathaway merece mais reconhecimento por suas habilidades como a rainha do exagero, e como Verity ela é espetacular.
À medida que nos aproximamos do clímax, os personagens começam a tomar decisões que pouco têm a ver com as pessoas que vimos nos 100 minutos anteriores. As reações de Jeremy a certas discobertas são quase impossíveis de conciliar com o bom senso ou com as informações disponíveis para ele, enquanto Lowen acaba fazendo uma escolha crucial que deveria ser o ápice de seu arco narrativo, mas na verdade soa mais como algo exigido por um roteiro desesperado para chegar à sua reviravolta final.
A audácia descarada do final, no entanto, não deixa de ser divertida. Quando Verity finalmente deixa de ser entediante e começa a desafiar nossa inteligência, o filme ganha um ritmo trash que era exatamente o que faltava para o resto da trama. O romance de Hoover torna esses desenvolvimentos mais convincentes ao permitir que os leitores acessem os pensamentos dos personagens ou ao deixar suas ambiguidades pairarem na página. No cinema, a história perde a força dessa dúvida que deveria ser o plot central. Em vez de nos fazer repensar o que assistimos, suas reviravoltas apenas nos incentivam a questionar se tudo aquilo fazia sentido desde o início. E não, não faz.
É difícil ignorar que Verity poderia ter sido mais, não só como adaptação, mas como produto cinematográfico em si. O filme não amarra as pontas soltas, suaviza os momentos cruciais e burla suas próprias perguntas ao acumular artifícios sobre artifícios. Para uma obra construída em torno de sexo, assassinato e obsessão, aqui se comete o único pecado que um thriller trash jamais deveria cometer: ser, na maior parte do tempo, simplesmente tedioso. Saímos da sala com a mesma cara de paisagem de Lowen ao encarar o manuscrito. Então, parafraseando a própria Verity: que assim seja.
Verity está em cartaz nos cinemas do Shopping Recife.

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