Você é do time “beliscar” ou “jantar”? O recém-lançado menu Mesa Cheia, do restaurante Terra, no Parque Gourmet, provavelmente vai satisfazer os dois lados. Esse festival, composto por cinco entradinhas, vem, estrategicamente, preencher vontades que não precisam ser necessariamente opostas. As porções são generosas o suficiente para serem compartilhadas em sequência por um grupo maior de comensais ou para se transformar naquela refeição principal, se esse for o propósito.
Todos os dias, a partir das 18h, o cardápio estará disponível em formato rotativo. E essa palavra é importante, sobretudo porque reforça uma das características do trabalho de Pedro Godoy: a inventividade. A proposta favorece a entrada de novas receitas, nascidas da mente inquieta do chef, que tem como premissa trabalhar com ingredientes da estação para extrair deles o máximo de sabor. Ao mesmo tempo, por reunir preparos em porções menores e sempre em movimento, o Mesa Cheia permite acompanhar, de maneira dinâmica, diferentes facetas da cozinha de Godoy.
No menu de estreia estão as seguintes opções: linguiça de cordeiro grelhada, servida com farofa de bacon, vinagrete e aioli de pimenta; coração de pato na brasa, com polenta frita e creme de parmesão; costela cozida e prensada, com molho roti, aligot de batata e farofa de bacon; charque e calabresa puxadas no mel de engenho, com queijo coalho, castanha de caju e pimenta-biquinho; e lâminas de atum, com macaxeira crocante, aioli de pimenta e ovo frito.
Um olhar mais atento abre uma janela para todo o caminho trilhado por Pedro Godoy — desde os tempos em que era um profissional recém-formado, buscando aperfeiçoamento na Austrália, até se tornar um dos nomes mais expressivos de sua geração no cenário gastronômico brasileiro.

A composição de charque e calabresa, que recebeu o poético título de Mulher Vestida de Sol, é uma reedição de um petisco criado para o bar Vaporetto, onde Pedro prestou consultoria, no início da carreira, para o empresário Eduardo Freyre. Foi com Freyre que Godoy inaugurou o Grupo Arvo, que hoje reúne, além do Terra, os restaurantes Arvo e Voar.
Vemos, nesse prato, um estreante experimentando uma tradição que o pernambucano tanto aprecia: o toque de dulçor nas preparações salgadas. A receita, no entanto, não ficou datada. Continua atual — e talvez seja justamente essa uma das melhores maneiras de reconhecer uma boa criação.
De uma ponta a outra nesse caminho de evolução, as lâminas de atum, com seu frescor, estabelecem um diálogo interessante com a macaxeira crocante (à moda das papas bravas), complementada pelo ovo frito. É Godoy atento à territorialidade — a brasileira, a nordestina — e, ao mesmo tempo, à familiaridade. Algo nessa combinação nos remete imediatamente a uma localização guardada em algum espaço do tempo: a infância, a juventude, a maturidade? Ou todas elas.
A costela prensada revela o apuro técnico de Godoy, enquanto o aligot deixa de ser mero acompanhamento para se tornar “complemento”. A genialidade está justamente nessa mudança de lugar: um prato que poderia ser o principal encontra o caminho do “belisquete” — algo que pegamos para mergulhar no purê de batatas, que faz as vezes de molho, e comer sem muita cerimônia.
A linguiça de cordeiro e o coração na brasa nos devolvem à botecagem clássica, mas sempre com algo a mais. O embutido é produzido na Fazenda Oz, em Igarassu, no Litoral Norte — ou seja, nada de produção massiva. Já o coração de pato, em vez do habitual coração de galinha, faz a gente imaginar: “Será?”. Sem dúvida, é! Uma delícia! É, sim, uma mesa cheia: de beleza, sabor e diversão para o paladar.

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