Se você esperava ver em Supergirl: Woman of Tomorrow aquela típica heroína solar, de capa impecável e sorrisos fáceis que Hollywood nos vendeu por décadas, esqueça. O novo filme do DCU, dirigido por Craig Gillespie, é uma quebra brutal de expectativa e um dos projetos mais visualmente ousados do cinema de super-heróis recente. A crítica internacional foi rápida em notar que o longa funciona como uma ficção científica gótica, áspera e artisticamente impecável, adaptada da obraprima dos quadrinhos de Tom King. Mas o grande segredo do filme não vem de Hollywood, e sim do Brasil.
Esteticamente, o filme é um espetáculo à parte porque é uma transposição literal das mentes dos artistas brasileiros Bilquis Evely e Matheus Lopes, os ilustradores responsáveis pela HQ original. Gillespie teve a genialidade de respeitar o traço poético de Bilquis e as cores melancólicas e espaciais de Matheus. O resultado na tela é um contraste fascinante de tons neon saturados que iluminam planetas desolados, abandonando aquela perfeição digital plástica e adotando texturas reais. São armaduras gastas pela poeira cósmica e cenários que parecem pinturas de ficção científica dos anos 70 sob lentes modernas de altíssima definição. É o quadrinho brasileiro ganhando vida da forma mais bonita possível.
No centro dessa atmosfera está a Kara Zor-El de Milly Alcock, uma personagem moldada pelo trauma, pelo luto e por uma amargura profundamente humana. O grande trunfo do filme está em inverter a dinâmica que conhecemos. Enquanto o Superman cresceu em uma fazenda acolhedora no Kansas, Kara Zor-El assistiu aos pedaços de seu planeta flutuarem no espaço enquanto todos que ela amava morriam. Alcock entrega uma atuação avassaladora; ela é durona, exausta e carrega uma fúria nos olhos que engole a tela. E essa força se prova ainda mais necessária quando o roteiro tenta amarrar a dinâmica de estrada entre Kara e a jovem Ruthye que busca vingança pela morte de seu pai.
Infelizmente, a química entre as duas não flui como deveria na tela. Falta carisma e estofo dramático à atriz que interpreta Ruthye, fazendo com que as interações fiquem travadas em alguns momentos. Mas Milly Alcock tem ombros largos. Ela carrega o peso das cenas nas costas, sustenta os silêncios e compensa a falta de ritmo da companheira com uma presença de cena intimidadora.
Essa inconsistência no elenco nos lembra de velhos vícios de produção que o estúdio insiste em carregar. É impossível assistir a essa nova fase sem notar o elefante na sala: a insistência em figuras como Jason Momoa, que agora aparece reconfigurado como o anti-herói Lobo. Apesar de entregar uma excelente e carismática atuação, a DC parece ter medo de andar com as próprias pernas e segura essas figuras antigas como uma espécie de muleta de bilheteria, gerando um ruído desnecessário em um universo que deveria focar no novo.
É uma narrativa sobre vingança, honra e, acima de tudo, resiliência. O filme foge do melodrama barato e entrega um terceiro ato grandioso, onde a violência gráfica das batalhas serve como o ápice de uma libertação emocional.
No fim das contas, Supergirl: Woman of Tomorrow prova que o cinema de heróis encontra sua salvação quando ousa abraçar a identidade de seus artistas e a profundidade de seus personagens. Apesar dos tropeços de elenco no meio do caminho, é um filme forte, esteticamente impecável e um verdadeiro soco no estômago visual que consagra Milly Alcock no topo da cultura pop moderna.



