As celebrações da Semana Santa, especialmente entre a Sexta-Feira e o Domingo de Páscoa, estão, intrinsecamente, ligadas aos hábitos alimentares. Religião e traços culturais se conectam para compor rituais, simbolismo e partilha.

 Do ponto de vista religioso, a abstinência de carne vermelha, ou o jejum, expressa respeito, reflexão e penitência pelo sofrimento e morte de Jesus Cristo. Culturalmente, a gastronomia evoca refeições em família, receitas tradicionais e ovos de Páscoa, que representam o renascimento, a fertilidade e a fé na vida que se renova.

 Nos cardápios dos restaurantes do Parque Gourmet, os chefs contam histórias através de suas criações culinárias. Propostas que sublinham tradição e afeto e que, por não terem a carne vermelha como item principal, ocupam um papel de destaque nas experiências da Semana Santa.

 O Brûlée Pâtisserie e Bistrô traz, em seu menu, uma opção que traduz com perfeição a influência franco-brasileira que norteia a linha de sua cozinha. A Assiette do Mar é uma homenagem às nossas raízes africanas e à técnica francesa. O vatapá, que se tornou símbolo da gastronomia baiana, serve de base ao camarão empanado e à pescada grelhada.

 As notas de sabor desse prato são amplificadas pelo bisque, um molho aveludado, de origem francesa, feito a partir das cascas do crustáceo e espessado com creme de leite. Nesse preparo, o chef Claudemir Barros diz que o “pulo do gato” é a utilização do gengibre flambado no licor Cointreau. A inspiração, segundo ele, veio de uma receita preparada pelo mestre Laurent Suaudeau, o francês que alavancou a gastronomia verde e amarela, abraçando o Brasil como sua segunda pátria. 

Curiosidade:

O bisque, feito a partir das cascas de crustáceos, que são tostadas e cozidas para extrair sabor, dialoga com práticas contemporâneas de sustentabilidade na cozinha por aproveitar integralmente o ingrediente

MIMO ESPECIAL VAI ENCANTAR OS CHOCOLOVERS

 O Brûlée preparou um cardápio especial para a Páscoa, e ele não vai deixar ninguém indiferente. O destaque – em meio às barras recheadas e os biscoitos amanteigados com chocolate ao leite – são os ovos de chocolate, que chegam na versão para comer “de colher” ou em fatias.

 Os ovos de colher, em meias bandas, são verdadeiras esculturas, construídas em camadas, com base cremosa, recheios densos e coberturas com texturas. São seis sabores que vão semear indecisão entre os chocolovers: Pistache, Favorito, Bûlée, Lótus Biscoff, Chocolatudo e Oreo. A solução ideal para conseguir provar todos é o Box Degustação, que traz as seis opções, em tamanho reduzido, acomodadas em uma linda caixa para dar de presente, ou se presentear.

 O apelo visual é inegável.  O item que leva o nome da marca, Brûlée, remete automaticamente a qualificações como “intensidade”, “conforto” e “prazer imediato”. Não à toa: a casca de chocolate branco é recheada com brigadeiro cremoso de creme brulée e geleia artesanal de morango. O ovo em fatias, cujas camadas se revelam à medida em que vai sendo cortado, é aquele doce ideal para ser compartilhado, um pedacinho para cada.

 Os itens especiais do Menu de Páscoa estão disponíveis apenas sob encomenda, pelo WhatsApp (81) 2011-7498, e os pedidos podem ser retirados na unidade Brûlée do Parque Gourmet.

 Curiosidade:

Os chamados ovos “de colher” são uma tendência relativamente recente na confeitaria brasileira. O formato ganhou força com a popularização das redes sociais, onde o visual — com recheios aparentes e cortes generosos — passou a influenciar diretamente o desejo de consumo.

DAS COLINAS DE NAGASAKI AO LITORAL RECIFENSE

 

Se na confeitaria o protagonismo está na indulgência, na cozinha japonesa a experiência se constrói pela delicadeza e precisão.

 A Colina de Atum (pode ser também de salmão ou mista) é um prato-assinatura do Sushi Yoshi e carrega consigo uma linda história de aventura, migração e enraizamento. A criação do mestre Masayoshi Matsumoto, tio do chef André Saburó, fundador do restaurante, tem como referência a paisagem de sua terra natal: Nagasaki.

 Dois terços do território do Japão são formados por montanhas. É plausível que Masayoshi, em algum momento nostálgico, tenha pensado em suas origens e tentado transportá-las sob a forma de ingredientes.

Para reproduzir as nuvens e os picos cobertos de neve, foi utilizado o harusame, macarrão finíssimo que, quando frito em imersão, ganha uma textura crocante e firme. As lâminas de peixe, temperadas com azeite de ervas, ficam em posição vertical, simulando a vegetação das encostas.

 Quando selado, o atum fresco revela novas notas de sabor, características da integração com o fogo, que se combinam com o adocicado do molho tarê – doçura, gordura, textura e umami em harmonia com a apresentação artística. O fato de essa especialidade ser preparada com o akami – parte do peixe localizada perto das costas, de consistência firme e tonalidade mais avermelhada – favorece a montagem como escultura.

 Mais do que uma homenagem afetiva às origens da Família Matsumoto, a Colina de Atum dialoga com o simbolismo da Semana Santa. Entre a Sexta-feira Santa e o Domingo de Páscoa, a gastronomia se torna um elo entre tradição e renovação — um convite a celebrar a vida que recomeça e a permanência de culturas que atravessam o tempo.

Curiosidade:

Na culinária japonesa, a apresentação do prato é tão importante quanto o sabor. Existe um princípio estético chamado “moritsuke”, que valoriza a disposição dos elementos de forma harmoniosa e inspirada na natureza. Pratos que remetem a paisagens — como montanhas, rios ou estações do ano — são comuns e reforçam a conexão entre comida, memória e território.

DOS LAGARES PORTUGUESES AO PARQUE GOURMET

 Uma marca que se mantém há mais de 40 anos como referência entre os recifenses precisa, necessariamente, ser movida por lembranças guardadas com carinho.  É assim que o Boteco Cia. do Chopp pauta o seu cardápio. Dois pratos destacam essa prática: o Bacalhau à Lagareiro e o Peixe Joaquim Costa.

 

O Bacalhau à Lagareiro é um daqueles pratos que contam uma história de trabalho rural, tradição portuguesa e valorização de ingredientes simples. Todos esses elementos pertencem à história familiar de Tony Sousa, nome à frente desse empreendimento que tem raízes luso-brasileiras.

 O termo “lagareiro” vem de lagar, o local onde se processa o azeite de oliva, um dos itens mais exportados por Portugal graças à sua reconhecida excelência. Os trabalhadores dos lagares, ou lagareiros, aproveitavam o fim da jornada para se deliciarem com aquele produto fresco, embebido em pão. A prática logo se estendeu a outro alimento muito comum em Portugal. O bacalhau, assado na brasa, era generosamente banhado naquele líquido denso e aromático, acompanhado simplesmente por alho e batatas ao murro. Do jeitinho que foi preservado pelo boteco Cia. do Chopp.

 O Peixe Joaquim Costa adquiriu nome e sobrenome em homenagem a um frequentador de primeira hora do Cia. do Chopp. Trata-se de uma derivação da clássica composição “à Belle Meunière”, na qual o pescado é finalizado com manteiga, limão, cogumelos fatiados e camarões. A diferença nesta versão foi feita sob medida para atender uma restrição alimentar do cliente-amigo: saiu o crustáceo, permaneceram os demais ingredientes. As guarnições são arroz e purê.

 Curiosidade:

A preparação “à Belle Meunière” e o nome “à moda da mulher do moleiro” surgiram na França e fazem referência ao uso de farinha para envolver o peixe antes de dourá-lo na manteiga. A finalização com limão e salsa cria um contraste clássico entre gordura e acidez, base de muitas receitas da culinária francesa.

A INSPIRAÇÃO QUE NASCE DA CONVIVÊNCIA EM FAMÍLIA

 Ao escolher os pratos Kauã e Biamar no menu do Chiwake, não estamos apenas apreciando receitas com pescados, mas também conhecendo um pouco da história do restaurante. O Chiwake é uma empresa familiar, liderada pelo chef Biba Fernandes e sua esposa Manuela Lisboa, e foi o espaço onde seus filhos, Bia e Kauã, cresceram, tornando o restaurante uma verdadeira extensão do lar.

 No Kauã, o peixe grelhado é acompanhado por um risoto cremoso de quinoa, traduzindo a leveza da culinária peruana e sua influência andina.  O Biamar combina camarão com massa ao molho huancaína. “Mais do que opções sem carne vermelha, esses pratos carregam nossa essência: afeto, identidade e a valorização dos ingredientes típicos do Peru”, resume Biba.

 O prato Kauã nasceu de uma sugestão do filho do casal, que, durante a pandemia, quando o foco se voltou para o serviço de entregas, quis colaborar ao observar o empenho dos pais em manter o restaurante ativo. Motivado pelo ambiente familiar, o menino propôs a criação de uma nova receita.

 A ideia inicial do prato, sugerida por  Kauã, incluía peixe, quinoa, queijo coalho e molho teriyaki. Com base nessa sugestão, a receita foi reinterpretada, adaptando alguns ingredientes para chegar à versão atual do menu. “Este prato conserva uma lembrança especial e simboliza o momento de união e criatividade vivido por nossa família”, destaca Biba Fernandes.

 O prato Biamar surgiu para atender a filha, que tem um paladar mais seletivo, voltada para combinações mais simples. Entre os preparos favoritos de Bia está o macarrão ao molho de queijo. Ao longo dos anos, a jovem passou a apreciar camarão. “Ao reformularmos o cardápio para a estreia do Chiwake no Parque Gourmet, adaptamos a receita com camarões crocantes, pensando especialmente no paladar dela. O resultado foi tão positivo que hoje ele se tornou um dos pratos mais pedidos da casa”, garante Biba. O prato finalizado inclui, além do crustáceo, cogumelos flambados no saquê, creme de ají e linguini.

 São pratos que vão além do sabor — carregam história, afeto e fazem parte de uma dupla identidade: de família e de restaurante. “O ají tem um leve toque de picância, mas o seu grande diferencial está no sabor — é ele que traz profundidade, identidade e aquele perfil marcante que define a gastronomia peruana. É um ingrediente essencial tanto no Kauã quanto no Biamar, e em boa parte do nosso cardápio”, esclarece Biba.

RECEITA QUE DIALOGA COM A TRADIÇÃO NORDESTINA

 No Nordeste — e de forma muito marcante em Pernambuco — a mesa da Semana Santa reflete um encontro entre tradição religiosa e identidade regional.  O uso intenso do coco em preparações como arroz de coco, bredo e feijão de coco tem raízes profundas na formação da culinária nordestina, influenciada por matrizes indígenas e africanas. O leite de coco, por exemplo, virou base de muitos pratos por ser abundante no litoral e por trazer sabor, gordura e cremosidade.

 No menu executivo do restaurante Terra, o peixe branco do dia grelhado na brasa, acompanhado de vatapá de banana-da-terra, farofa de dendê e molho de coco, sintetiza com elegância a essência da cozinha nordestina — especialmente durante a Semana Santa.

 A criação do chef Pedro Godoy valoriza o pescado, combinando técnicas simples com sabores intensos. O uso do dendê, do coco e da banana-da-terra remete diretamente às matrizes africanas e indígenas que moldaram a culinária local, transformando a refeição em mais do que sustento: um gesto de memória, partilha e celebração da vida que se renova à mesa.

 A técnica de cozinhar ou assar alimentos na folha de bananeira é uma prática ancestral, muito presente na culinária nordestina, que alia sabor, aroma e funcionalidade. Ao envolver o peixe ou outros ingredientes na folha, cria-se uma espécie de “invólucro natural” que preserva a umidade durante o preparo, resultando em uma textura mais suculenta e delicada. Além disso, o calor libera óleos essenciais da própria folha, que perfumam o alimento de forma sutil e característica.

 Na Semana Santa, seu uso ganha ainda mais significado: reforça a ideia de simplicidade e conexão com a terra, elementos que dialogam diretamente com o espírito de reflexão e renovação do período.

 Curiosidade

O bredo (um tipo de planta do gênero Amaranthus) sempre foi visto como uma planta espontânea — daquelas que nascem sozinhas no quintal, na beira de estrada ou em terrenos baldios. Durante muito tempo, inclusive, foi tratado como “mato”. Em outras partes do mundo, folhas de Amaranthus são consideradas “superalimento”, enquanto no Nordeste brasileiro ainda são vistas como comida simples — o que mostra como o valor de um ingrediente também depende da cultura.

ITALIANOS BUSCAM EQUILÍBRIO E SABOR NO MAR

 Na culinária italiana, a combinação entre massas e peixes segue uma lógica própria, guiada menos pelo excesso e mais pelo equilíbrio e respeito ao ingrediente. Diferente de versões mais carregadas que se popularizaram fora do país, os italianos costumam preparar massas com frutos do mar de forma mais leve, deixando que o sabor do peixe seja protagonista. Molhos à base de azeite, vinho branco, tomate fresco ou ervas são preferidos em vez de cremes densos, justamente para não encobrir a delicadeza do pescado.

 Essa tradição é especialmente forte nas regiões costeiras, onde o acesso a peixes e frutos do mar frescos moldou receitas clássicas. Pratos como linguine alle vongole ou spaghetti ai frutti di mare refletem essa filosofia: poucos ingredientes, preparo cuidadoso e foco na qualidade. A massa funciona quase como uma base neutra, que absorve os sabores do mar sem competir com eles.

 

O Toscana tem representante à altura desse zelo, representado pelo Spaghetti al Frutti di Mare, que combina a massa longa com polvo, lula e camarões ao molho de tomate e um toque de ervas frescas. O Zio, que também navega por essa vertente culinária, tem o Camarão Stupendo como carro-chefe: camarão grande com molho de espumante, servido com Capelli D’Angelo e ovas de peixe (masago). Ambas as receitas são exemplos bem-acabados de que, mesmo em preparações simples, a cozinha italiana consegue atingir grande profundidade de sabor.

 Curiosidade:

Na Itália, especialmente nas regiões costeiras, é comum que massas com frutos do mar não levem queijo — uma regra cultural que pode surpreender estrangeiros. A razão é simples: os italianos acreditam que o queijo interfere no sabor delicado do pescado, quebrando o equilíbrio do prato.