Arte por toda parte — dentro, fora e ao redor. Assim se apresenta o Abril Cultural, evento que movimenta o Shopping Recife entre os dias 6 e 30 do mês. O Parque Gourmet entra em sintonia com a programação, que contempla uma agenda diversa, reunindo exposições, ações de relacionamento, experiências gastronômicas, rodas de conversa e muito mais. Nesta terceira edição, a fotografia ganha protagonismo como linguagem artística em destaque.

 Há muito mais afinidade entre gastronomia e fotografia do que se imagina — sobretudo em um tempo em que o olhar, muitas vezes, se sobrepõe até mesmo aos sentidos tradicionalmente ligados ao ato de comer. Se antes do advento das redes sociais éramos seduzidos pelo aroma irresistível dos pratos que circulavam pelo salão, hoje é o apelo visual que primeiro nos captura e desperta o desejo.

 Como diz o ditado, “comemos primeiro com os olhos” — máxima que, hoje, poderia ser atualizada para “fotografamos antes mesmo de saciar o apetite”. Visão, olfato e paladar sempre formaram uma tríade essencial quando o assunto é culinária, mas o hábito de dedicar alguns minutos à busca do enquadramento e da luz perfeitos para registrar o prato é um fenômeno relativamente recente.

 Atualizando mais uma vez o repertório popular — que já afirmou que “beleza não põe mesa” —, hoje é possível dizer que a estética de um prato pode, sim, elevá-lo ao posto de “mais pedido” do cardápio. Na gastronomia, porém, a beleza segue sendo subjetiva e não caminha sozinha: está profundamente ligada a contextos culturais. O que se considera “atraente” na culinária italiana, por exemplo, obedece a critérios bastante distintos daqueles que orientam a cozinha japonesa. Em qualquer restaurante, o talento do chef é que confere autoralidade.

A COMIDA COMO ARTE SILENCIOSA: MENOS É MAIS

Os pratos do Sushi Yoshi, representante da culinária japonesa no Parque Gourmet, são guiados por conceitos como o wabi-sabi — uma estética do despojamento que valoriza a simplicidade e a naturalidade. Nesse contexto, cada elemento é pensado com rigor: das louças, cuidadosamente escolhidas para cada preparo, aos cortes precisos, passando pelo uso intencional do espaço vazio, que se torna parte essencial da composição. O resultado é uma apresentação que ressalta, com delicadeza, as cores e o frescor dos ingredientes.

O PRATO QUE REVELA IMEDIATAMENTE SUA ESSÊNCIA

O Toscana e o Zio seguem a cartilha italiana: uma cozinha simples e afetiva, que transita entre o rústico e o refinado. Nas apresentações, o protagonismo é sempre do ingrediente principal. Embora, no Brasil, seja comum a combinação de carnes e massas em um mesmo prato, na Itália a tradição segue outro caminho: proteínas mais robustas costumam ser acompanhadas de legumes, enquanto as pastas (não recheadas) são servidas apenas com molhos.

 Essa adaptação tão brasileira reforça a ideia de um estilo “caseiro elegante” que muitos consumidores associam à culinária italiana — uma estética que evita excessos de montagem e artificialidade, valorizando o alimento como expressão de conforto. As cores da bandeira italiana também aparecem, de forma sutil ou marcante, nos pratos: no verde do manjericão, no vermelho do tomate e no branco dos queijos.

 

 

É inegável que a fotografia consolidou a gastronomia como uma experiência também visual e cultural. Mais do que documentar, ela constrói narrativas, dita tendências e transforma pratos em símbolos de estilo de vida. No caso de uma marca como a Fazenda Churrascada, somos imediatamente conduzidos a uma estética de abundância, robustez e franqueza.

 Nas imagens, espera-se a tradução fiel desse universo: cortes generosos e suculentos, o brilho da gordura que intensifica o sabor das carnes, texturas evidenciadas em primeiro plano. A paleta, quase monocromática, percorre variações de marrom e vermelho, reforçando a força e a rusticidade que definem essa identidade.

COMER VIRA EXPERIÊNCIA INTELECTUAL E SENSORIAL

Os restaurantes Terra e Chiwake compartilham uma linguagem contemporânea como ponto de convergência, ainda que partam de referências distintas. O Terra se ancora nas referências da culinária nordestina, enquanto o Chiwake transita pela cozinha nikkei — encontro entre as tradições peruana e japonesa.

 Em ambos, a estética é vibrante, colorida e culturalmente plural, valorizando contrastes, montagens modernas e o uso de ingredientes frescos e visualmente marcantes. Em cada contexto, o prato se apresenta como uma tela, capaz de narrar histórias de território e memória. Há uma beleza de aparência casual, quase despretensiosa, mas profundamente calculada. Uma imponência sem esforço aparente — ainda que sustentada por técnica refinada e amplo repertório.

UMA ESTÉTICA MENOS FORMAL E MAIS HUMANA

À primeira vista, a cozinha de bistrô francesa e a comida de boteco brasileira parecem ocupar extremos — uma associada à tradição europeia e outra à informalidade popular. Mas, ao olhar mais de perto, surgem pontos de encontro reveladores entre França e Brasil. Tanto o bistrô quanto o boteco valorizam o conforto, a simplicidade e a convivialidade: são espaços onde a comida não busca impressionar pela técnica sofisticada, mas pelo sabor afetivo e pela experiência compartilhada.

 Os pratos do Brulée Bistrô, de influência franco-brasileira, e do Boteco Cia. do Chopp, de matriz luso-brasileira, chegam à mesa com uma estética despretensiosa, que privilegia o acolhimento em vez da encenação. Mais do que estilos culinários, ambos evocam uma maneira de estar à mesa: menos formal, mais humana, em que comer se entrelaça com conversar, brindar e prolongar o tempo.

PARQUE GOURMET E ARTE: TUDO A VER

O Parque Gourmet expõe um valioso conjunto artístico no exterior e guarda também em seu interior elementos que sublinham a potência criativa contida em Pernambuco.  Nesse cenário concebido de acordo com os parâmetros mais modernos da arquitetura voltada para centros de compras, a arte culinária abraça as artes visuais, estabelecendo um diálogo não apenas sincronizado, mas ampliado.

 O acervo que originou o Parque das Esculturas do Shopping Recife, em 1997, não nasceu de um dia para o outro, mas começou a ser formado desde a inauguração do mall, em 1980, e isso diz muito sobre sua robustez, coerência e organicidade. Algumas das primeiras obras adquiridas – Mulher Reclinada/Mulher Reclinada Ajeitando o Cabelo (Abelardo da Hora, 1980) e a Figura Sentada, de Corbiniano Lins (1980) – estão no Parque Gourmet como anfitriãs que apresentam essa nova concepção de interação com a cidade, seus moradores e visitantes.

 As obras mais recentemente incorporadas ao patrimônio visual do Shopping Recife são O Amor (Joelsonbiu, 2025) e Acumulação Progressiva Crescente (José Patrício, 2025), ambas localizadas no segundo piso do Parque Gourmet (ao lado do restaurante Zio e ao fim do mesmo corredor no lado esquerdo). Esses artistas se somam aos mais de 30 nomes que são referências nas artes plásticas pernambucanas, em peças que estão espalhadas pela vizinhança do Parque Gourmet. Uma galeria ao ar livre que não encontra similar em outros centros de compras. Passear por ali é um programa que alimenta corpo e alma.

CHEFS E ARTISTAS NUM DIÁLOGO ESTÉTICO E CULTURAL

Da mesma forma como as obras artísticas foram sendo incorporadas ao acervo do Shopping Recife, levando-se em consideração critérios como representatividade, excelência reconhecida, valor identitário e relevância cultural, os restaurantes que integram o Parque Gourmet passaram por uma curadoria que os chancela como representantes expressivos de seus segmentos.

 Não à toa, a expressão “Arte Culinária”, que começou a ganhar força a partir da Idade Média, carrega adiante a ideia de que cozinhar vai além de uma execução prática com propósito nutricional. O conceito, consolidado na França entre os séculos 17 e 18, defende que a culinária, em sua vertente artística, envolve criatividade, técnica, sensibilidade estética e expressão cultural.

 Assim como o artista visual escolhe seus materiais para conceber uma obra (tinta, argila, pedra, papel), o cozinheiro elege os ingredientes que materializarão o produto apresentado ao comensal (carnes, hortaliças, ervas, grãos). Para um, tudo começa com um esboço ou projeto; para o outro, a receita funciona como guia que orienta o processo. O domínio das respectivas técnicas permite a obtenção de um resultado consciente, que corresponda ao impacto e/ou mensagem inicialmente pretendidos. Enquanto o chef utiliza o prato como “tela em branco”, o artista visual seleciona o suporte sobre o qual deseja trabalhar.

 Chefs e artistas visuais tornam-se reconhecidos por suas identidades estéticas, seja por estarem inseridos em um contexto temporal específico, seja pela fusão de diversas influências. No decorrer das épocas, estilos são criados, técnicas são aprimoradas, a percepção cultural é reformulada e padrões são rompidos. Nesse processo contínuo de transformação, tanto na arte culinária quanto nas artes visuais, nada permanece fixo, e a efemeridade de determinadas linguagens reafirma a experiência artística como algo vinculado ao tempo, ao contexto e à sensibilidade de quem a apreende.

VIZINHANÇA QUE CONTEMPLA TODOS OS SENTIDOS

A vizinhança entre arte culinária e artes visuais, proporcionada pelo Parque Gourmet, favorece um exercício lúdico de livre associação e fruição entre as obras que ali estão e as criações dos chefs. É fácil imaginar, por exemplo, uma afinidade quase intuitiva entre a escultura Nó (Marianne Peretti, 1997) e as montagens assinadas pelo chef André Saburó para o Sushi Yoshi. Em ambas, é possível reconhecer a simplicidade aliada à precisão, marcada pela ausência de rebuscamento e pela exaltação da volumetria com leveza e cores em pontuação exata.

 O Chiwake, do chef Biba Fernandes, adota a verticalização em algumas de suas montagens imprimindo-lhes uma sensação de monumentalidade e hierarquia, em diálogo com a escultura Tótem (1997), de Alex Mont’Elberto. Estruturado a partir de base, meio e topo compostos por diferentes sabores e texturas, o filé Wanchako constitui um exemplo expressivo dessa escolha criativa.

 Se o amor se revela nos detalhes, a obra de Joelsonbiu (2026) encontra correspondência na proposta do chef Pedro Godoy. A admiração pelo perfeccionismo expresso pela natureza faz parte tanto do nome do restaurante Terra quanto da inspiração que deu origem à escultura composta por 200 peças de cerâmica que replicam a beleza da Hoya, também conhecida como flor-de-cera.

 As campânulas que compõem o conjunto, sustentadas por um fio de aço, assumem tons diversos dentro de uma paleta terrosa – do vermelho escarlate ao laranja – obtidos a partir de barros de diferentes tipos e queimas em temperaturas variadas.  As criações de Pedro Godoy são, assim como o solo, generosas, suculentas e plenas de referências ao território.

 Em frente ao Boteco Cia do Chopp, do outro lado da via local, estão duas obras que usam o território como premissa: Cana-de-Açúcar, de Ângela Poluzzi (1997), e Movimento Mangue, de Augusto Ferrer (1998). Nesse ponto, o diálogo entre cardápio e obras se estabelece pelo viés histórico, entendido como memória, circulação cultural e pertencimento territorial.

 

A cana-de-açúcar, representada em cerâmica vitrificada e apoiada sobre uma base retangular, remete à intensa troca de saberes culinários entre Brasil e Portugal, tendo a commodity agrícola como ponto focal da interculturalidade. Estão implícitos nesse diálogo, tanto os doces conventuais portugueses, conhecidos por sua doçura exuberante, quanto o pernambucano bolo Souza Leão, igualmente rico em açúcar, que substituiu o trigo importado pela mandioca de cultivo indígena.

 Envolvendo o conjunto, a escultura Movimento Mangue, de Augusto Ferrer, homenageia o Recife-estuário, onde nasceu e cresceu o shopping que assimilou o nome da cidade. O Boteco Cia. do Chopp, por sua vez, assume com entusiasmo sua identidade binacional – luso-brasileira – ou uma trinacionalidade, se pensarmos que, como se diz, Pernambuco é um país. Seu cardápio cria avenidas ultramarinas ao propor tanto um franguinho à moda lisboeta, com arroz malandrinho de miúdos, sem desprezar a brasileiríssima farofa, quanto um emblemático casquinho de caranguejo.